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Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2020, 07h:00

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Desafio da “rasteira” ou “quebra crânio” pode trazer consequências graves, afirma neurologista

Nesta semana, vídeos em que adolescentes aplicam rasteiras uns aos outros começaram a circular na internet. A brincadeira tem sido praticada entre alunos de escolas públicas e particulares.


Imagem de Capa
Jaqueline Hatamoto
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O neurocirurgião Felipe Bastos de Lima, do Instituto de Neurocirurgia de Primavera

Pais, educadores e médicos, tem se mostrado bastantes preocupados em relação a vídeos de uma perigosa brincadeira em que adolescentes dão uma rasteira em colegas. No desafio conhecido como desafio da “rasteira” ou “quebra crânio”, dois jovens se posicionam ao lado de um colega, que é orientado a pular e, então, recebe o golpe. A pessoa acaba caindo e batendo a cabeça no chão. Especialistas afirmam que a queda pode causar danos no crânio, no cérebro e na coluna.

O neurocirurgião Felipe Bastos de Lima, do Instituto de Neurocirurgia de Primavera do Leste, ressalta que quando há a queda, a parte que é afetada trata-se de uma região muito sensível, podendo causar lesões graves. “Principalmente quando acometem crianças que estão em fase de desenvolvimento muito precoce. Tratam-se de lesões graves de auto impacto, pois não há uma proteção dos braços, cinto de segurança ou um capacete que permita proteção da estrutura óssea do cérebro para não lesionar. É um tipo de lesão, que principalmente acomete a nuca, região occipital do crânio, que é uma região extremamente nobre, uma vez, que está muito próxima ao cerebelo, tronco encefálico e também estruturas vasculares, como seio sigmoide e artérias cerebrais posteriores ”, frisou.

O profissional ressalta que o principal risco observado neste tipo de trauma é a fratura do crânio e que em muitos casos, a pessoa pode ter que passar por uma cirurgia. “A fratura occipital pode ser uma fratura fechada, ou uma fratura aberta. Se for uma fratura fechada, na grande maioria dos casos é uma fratura cirúrgica. Outra condição são os hematomas, que podem ser entre o cérebro e osso, hematomas extradurais e subdurais, ou hematomas intraparenquimatosos, que dependendo do tamanho e localização e do que está causando no cérebro pode ser cirúrgico ou não”, destacou Lima.

É importante nestes casos de traumas ficar sempre atento aos sinais que podem ser sutis ou um pouco mais graves. “Os principais são alterações dos níveis de consciência, falas desconexas, esquecimento, perda de orientação temporal, náuseas e vômitos e sangramentos pelo nariz e ouvido”, explica o neurocirurgião, que orienta a procurar ajuda médica imediatamente. “Neste caso devem procurar atendimento médico com urgência, pois pode ser algo que evolua rápido e as vezes mesmo onde há um neurocirurgião como aqui em Primavera, não haja tempo para fazer atendimento de urgência”.

Além do risco de morte, a brincadeira pode trazer sérios riscos à saúde. “Pode trazer alterações cognitivas, que podem ser transitórias ou duradouras. Alterações motoras dependendo da área que acomete o hematoma. Alterações visuais de um ou dos dois olhos. Alteração da motricidade se eventualmente se localizar na região da fossa posterior, pegando o cerebelo. Pode trazer coma e eventualmente levar a morte, como caso registrado em Mossoró”, explicou o neurocirurgião.

O médico ressalta ainda que em caso de quedas desta natureza, além de se buscar atendimento médico, uma tomografia seja solicitada. “As tomografias hoje mostram uma gama de alterações que podem ser tratadas e evitar um déficit maior. Só o raio-X não mostra conteúdo intracraniano, um raio-X normal não é sinal que não haja algo mais grave dentro do cérebro”, expôs o profissional.

SBN e SEDUC MT emitiram alertas

A Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) divulgou um comunicado em suas redes sociais alertando sobre os riscos dessa “brincadeira”. “Esta queda pode provocar lesões irreversíveis ao crânio e encéfalo (Traumatismo Cranioencefálico - TCE), além de danos à coluna vertebral. Como resultado, a vítima pode ter seu desempenho cognitivo afetado, fraturar diversas vértebras, ter prejuízo aos movimentos do corpo e, em casos mais graves, ir a óbito”, diz.

A SBN ressalta ainda que o caso pode ser enquadrado como um crime. “O que parece ser uma brincadeira inofensiva, é gravíssimo e pode terminar em óbito. Os responsáveis pela “brincadeira” de mau gosto podem responder penalmente por lesão corporal grave e até mesmo homicídio culposo”, completa a nota.

SEDUC orienta escolas

A secretária adjunta de Gestão Educacional, Rosa Maria Luzardo, enviou um orientativo às escolas da rede estadual de ensino, extensivo aos profissionais da educação e comunidade escolar, prevenindo sobre o perigo dessa nova brincadeira.

“A Seduc faz um alerta para sensibilizar os gestores, professores e pais quanto à gravidade dessa brincadeira que inclusive já levou uma pessoa a óbito”, destaca.

Conforme o orientativo, a Seduc “recomenda que todas as unidades escolares e Assessorias Pedagógicas intensifiquem campanhas de informação e conscientização dos alunos e familiares sobre o risco em que podem se colocar ao praticarem esse tipo de conduta, para que preservem a integridade física própria e dos demais colegas”.

A origem  do desafio

O "desafio da rasteira" viralizou após o youtuber Robson Calabianqui dar uma rasteira na própria mãe e postar na internet. Muitos acharam divertido e começaram a repetir. Diante da repercussão negativa, o youtuber, que é conhecido como Fuinha e tem mais de 2 milhões de seguidores, retirou o vídeo do ar e fez um pedido de desculpas publicamente.

“O vídeo, até certo ponto, parece engraçado, mas vocês sabiam que eu poderia ter perdido a minha mãe por causa desta brincadeira? Ela poderia ter batido a cabeça e sofrido um traumatismo craniano ou qualquer uma outra lesão irreversível para a vida dela. Por conta disso, estou muito arrependido por ter postado esse vídeo. Em nenhum momento eu pensei que ele seria um viral dessa proporção”, afirmou Fuinha.

“Como influenciador, eu errei. Como humorista, eu falhei. Eu peço desculpas para todos vocês. Então quero pedir de coração que não propaguem esse vídeo”, acrescentou.

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