VIOLÊNCIA /

Sexta-feira, 04 de Outubro de 2019, 07h:00

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A dor existencial do assédio/abuso

Quando eu decidi denunciar o abuso não foi nada fácil, foi na verdade o relato mais doloroso da minha vida


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Luciene Afonso

Eu tenho tido aqui a oportunidade de falar sobre assuntos ligados às relações humanas e sempre recebo o feedback positivo dos leitores, fico muito feliz em ter o fruto do trabalho validado de uma forma tão carinhosa.

Hoje está sendo um pouco mais difícil escrever porque senti que precisava falar sobre algo ruim que eu vivi e que certamente muitas mulheres sofrem no ambiente de trabalho, o assédio sexual.

É extremamente necessário levantar essa bandeira porque a sociedade de uma maneira em geral, distorce os papéis e transfere para a vítima a responsabilidade do ocorrido, o que é no mínimo injusto, partindo do princípio que todos nós temos a capacidade de definir o que é certo do errado.

De uma maneira geral, o direito do outro vai até onde começa o meu, certo? No meu caso a resposta é não, porque o outro que eu nem vou nomear aqui, sempre se comportou como o macho alpha, com uma postura de dominância entre os demais no que diz respeito a autoconfiança, capacidade de sedução e conquista acima da média, o que nunca funcionou comigo, talvez isso o fez ser tão insistente e covarde.

Eu pude sentir na pele que homens como ele acreditam sinceramente que nós mulher viemos a este mundo para servir a eles com “favores sexuais”, e o que é pior, que gostamos do comportamento imoral que  eles não sentem vergonha em ter na nossa presença, o que é absurdo!

Quando eu decidi denunciar o abuso não foi nada fácil, foi na verdade o relato mais doloroso da minha vida, porque essa é uma dor existencial minha devido ao fato de ter sido molestada aos 7 anos por alguém que era “amigo da família”, fato que ninguém da minha família soube até hoje, eu nunca fui capaz de contar nem para a minha mãe.

Me ver passando por tudo novamente já adulta, mãe de duas filhas, foi horrível. Eu sempre fui uma mulher de ter a minha opinião formada sobre diversos assuntos e nunca tive receio de me posicionar quando entendi que deveria mais tocar nessa ferida era demais pra mim. Eu me odiava por não ser capaz de jogar essa lama no ventilador, eu não achava justo me ver envolvida em algo tão baixo. Era muita confusão até que não suportei mais, deixei de pensar em como ficaria a cabeça da esposa dele ao saber de tudo, afinal, isso nunca foi problema meu, de como ele seria visto pelos demais colegas no ambiente de trabalho já que tinha a falsa imagem de homem “respeitável” (não para mim que conhecia muito bem a sua verdadeira personalidade). Mesmo a vergonha não sendo minha, eu a carreguei e passei a viver uma personagem naquele ambiente que aos poucos me adoecia e gerava uma apatia insuportável.

Aparentemente o susto da maioria foi grande e a reprovação em relação a minha atitude também. O que eu posso dizer é que NÃO sinto muito por ter escolhido ir até uma delegacia contar a minha verdade e não ter dado a notícia em primeira mão para eles. Uma autoavaliação de cada um nesse sentido poderia esclarecer que a minha intenção nunca foi ser assunto em roda de fofoca (o que acontece na maioria das vezes) e sim que a justiça fosse feita, por isso eu recorri as vias legais.

Me cobram por eu não ter falado nada, por não ter deixado transparecer a minha dor, por ter feito a denúncia sabendo que de alguma forma (que não me interessa qual seja) ele será punido e por aí vai...

O que algumas pessoas não consideraram é que o fato de não ter me permitido contar sobre o abuso para ninguém, me trouxe  consequências bem sérias na minha vida pessoal e emocional,  e por esse vale eu vou ter que passar sozinha.

O que não vou  de maneira nenhuma é me importar com a aprovação de quem não passou pelo que eu passei, aliás nenhuma mulher que sofre abuso deve ficar preocupada com a opinião alheia.

Se eu tivesse mesmo a necessidade de explicar porque esse segredo ficou guardado tanto tempo, poderia relacionar os sentimentos ruins  que sempre fizeram parte desse cenário de abuso  como a vergonha e a  humilhação.

Hoje eu sei que fiz o que era certo porque a vergonha nunca foi minha para eu carregar para o resto da vida, eu a devolvi a quem NUNCA eu dei o direito de me tocar e ser tão escroto como foi.

Existe um tempo certo para todas as coisas, a sensação que eu tinha era que eu continuava me abusando todas as vezes que eu escolhia não contar para preservar a “imagem” dele,  inconscientemente era isso que eu estava fazendo, me preocupando com quem me fazia mal mesmo  que ele não estava nem ligando para o crime que cometia. Afinal,  fo** os bons costumes, já que nas madrugadas não existe testemunhas mesmo.

Por falar nisso, houve até quem me perguntou se eu tinha prova do que eu estava falando, pois a minha verdade era muito pouco, afinal a “história” que eu estava contando soava estranho demais. A vá!

Por tudo isso que as questões que envolvem abuso é tão complicada e cada caso é um caso e todos devem ser tratados com o mínimo de respeito e compaixão.

Me sinto aliviada por ter denunciado e só me arrependo de não me sentir segura o suficiente para ter feito isso antes.

Existe uma frase do autor Paulo Vieira no livro o Poder da Autorresponsabilidade que define muito bem o meu momento presente, “seja como for, você é o único responsável pela vida que tem levado”.

Eu vivi o abuso e EU DENUNCIEI o abuso para que homens machistas, irresponsáveis e escrotos sejam punidos porque mulher nenhuma merece isso!

 

Luciene Afonso

Master Coach

Palestrante

Jornalista

Analista Corporal e Comportamental

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