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Quarta-feira, 16 de Maio de 2018, 07h:00

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Em tempo de dilaceramento social

A aposta política reside, simplesmente, no ato da hipocrisia?


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Ademar Carvalho; Paulo Silva

Em tempo de dilaceramento social, a primeira coisa que se apresenta à massa é provar do “veneno doce”. Um exemplo bem característico é a insistência em disseminar a ideologia que nega a política como mediação e mobilização popular como possibilidade de conquistar o poder. Aqui cabe uma pergunta básica: porque a classe dominante não coloca em segundo plano a organização política como estratégia de manter a sua hegemonia de classe articulada ao poder econômico que financia a eleição?

Outro veneno ainda mais adocicado que tem como substrato inocular de forma perversa no imaginário símbolo social é o fetiche religioso de cunho eclesiológico neoliberal. Fala muito de ética, moral, porém, na relação cotidiana tem prevalecido a ganância, o vírus do ódio, desamor e hedonismo. O que está acontecendo é má fé ou uma hermenêutica equivocada do conteúdo do Evangelho? Porque no evangelho de João (15,12-13), destacar a relação recíproca com foco no Amor? Assim enfatiza que “o meu mandamento é esse: amam-se uns aos outros, assim como eu vos amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos”. Isso significa entender que somente existe a presença de Deus onde reina o amor.  O ponto de partida para o Amor a Deus passa pelo amor a pessoa humana que esta próxima de você. Quando se trata do mundo da política, essa orientação não tem validade? A aposta política reside, simplesmente, no ato da hipocrisia?

Na carta Joanina está expressa a afirmação de que "quem disse que ama a Deus e não o seu irmão é mentiroso" (João 4,20). Dessa forma, o cristão não pode abrir mão da política como expressão suprema de caridade, tampouco, renunciar a práxis do amor como fonte da emancipação e libertação humana. O fato singular é que num tempo de vazio de espiritualidade libertadora o que aparece de imediato é o fetichismo da individualidade que conduz para degustação do “veneno doce” que parece como solução imediata para a superação da angústia do esvaziamento de geração.

Diante da realidade dilacerada, entendo como o pensador Byung Chul Han que “estamos em rede, mas não encontramos o outro, só fazemos barulho”, por isso que não saímos do estado nostálgico do saudosismo e caímos no isolamento do refúgio do individualismo pensando que apenas vociferando sobre ética do indolor sem engajamento político aparecerá um “sassá mutema” como salvador da pátria.

Por outro lado, é importante entender que uma sociedade educada nos princípios da cultura da injustiça, a percepção e sensação que fica sobre o momento político, de modo particular, o eleitoral é a lógica da “gritocracia” estérea, algemada a cultura do conservadorismo violento, que apresenta como proposta  palpável, o aniquilamento das diferenças como reafirmação, seletividade e desigualdade social.

É muita propaganda que não passa de cortina de fumaça inoculada a reivindicação de transparência de um Estado, instituição que perdeu a confiança da população. Nesse espaço de contradição o que fica perceptível é que trabalho, estudo, fazer política é tempo pedido. O que vale dizer que a democracia fenece na consciência de quem precisa da proteção do Estado democrático de direito para garantir a condição mínima de sobrevivência.

A negação da historicidade dos fatos contribui com a veiculação da ideia de que o dilaceramento social, a corrupção e o levar vantagem na política é simplesmente, um ato da atualidade. Portanto, é importante compreender que hoje sofremos o rescaldo do que historicamente foi plantado na arena do poder sócio-político-econômico.  A questão é que no extrato da cultura política e relação cotidiana de muita gente, ainda cultua, embora de forma tácita, a crença continuada nos princípios da injustiça como estratégia de tolerância das desigualdades. O problema é que em tempos modernos, a promoção da exploração do agir egoisticamente, que indiretamente beneficiava a outros explodiu, perdeu-se o controle da massa. Da mesma forma, que o artifício usado para moldar percepções, atitudes e ações populares também não se sustenta mais diante da prática política.

Hoje diante do dilaceramento social, crenças e intenções são confrontadas com a violência, corrupção visível, empobrecimento e onipresença do egoísmo obrigam a uma nova percepção social. Embora, o elitismo tenta ainda impor a sua ideia de eficiência afirmando que o privado é que sobressai por ser melhor que o público. Por isso que no campo do político busca oferecer outra linguagem discursiva para apoiar e sustentar a persistência do primado da desigualdade social, o desejo é desesperadamente, articular outra dose de veneno doce para não mudar a hegemonia de dominação historicamente construída. No movimento da negação da política apresenta a mesma cultura, contudo personificada agora de nova e “borsonoficada” da arte do disfarce de moralidade e defesa da família, para que mentes e corações sintam o presente, porém dissociado da constituição histórica, mazela política e poder que vigora no País.

O fato singular é que a cada dia que passa perde-se a consciência da dominação e no vácuo exalta a violência simbólica e estrutural. E nesse movimento de ida e vinda, de ausência de direitos fundamentais e de uma espiritualidade libertadora, coloca-se como substrato o culto, a fetichização da individualidade, por consequência, cresce a aposta ao mundo da política sem a presença do outro. Tudo isso é estratégia que gera o encantamento do mundo desencantado. 

O que pode inferir-se de tudo isso, que o processo de despolitização orquestrado pela grande mídia é fundamental para a formação da consciência mágica que mistifica a política, enquanto questão central e necessária para a contra hegemonia da classe trabalhadora à burguesia.  É a forma contemporânea de apresentar o mito da caverna de Platão para justificar a impossibilidade de a classe trabalhadora avançar em direção a radicalidade da democracia participativa e popular. Pelo menos dar provimento o que anuncia os objetivos do artigo 3° da CF/88: 1- construir uma sociedade livre, justa e solidária; 2- garantir o desenvolvimento nacional; 3- erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; 4-promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Então, o que precisa é de política para não ser idiota. Porém, fundamentada no princípio e projeto de uma sociedade livre, justa e democrática, não na reificação do projeto que historicamente tem sustentado a hegemonia do sistema capitalista produtor da desigualdade social.

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