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Terça-feira, 15 de Maio de 2018, 12h:09

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Marca de cosméticos britânica deixa o Brasil alegando alta taxa tributária

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Brasil Econômico

Marca de cosméticos britânica Lush vai encerrar operações no Brasil por conta das dificuldades operacionais e da incerteza política
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Marca de cosméticos britânica Lush vai encerrar operações no Brasil por conta das dificuldades operacionais e da incerteza política

A marca de cosméticos Lush anunciou nesta segunda-feira (14) que está encerrando suas atividades no Brasil a partir do dia 20 de junho. A empresa que conta com 129 funcionários, cinco lojas, um spa e um site de vendas afirmou que "o Brasil é um mercado muito difícil para a operação de uma marca britânica". Além disso, a fábrica, em Bom Jesus dos Perdões, no interior de São Paulo, que emprega mais 44 pessoas também será fechada.

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Dessa forma, a Lush chega ao fim de sua segunda passagem pelo Brasil. O primeiro foi entre 1999 e 2005. Depois disso, sucedeu-se um hiato até que a marca de cosméticos voltou ao país em 2014 para novamente anunciar que vai se retirar em 2018. Nos últimos quatros anos, porém, a empresa nunca chegou a se consolidar e acumulou prejuízos mesmo com o crescimento na vendas.

Segundo o comunicado divulgado pela empresa, "a alta carga tributária , a prolongada recessão econômica no país, somados à instabilidade polícia , tornou impossível à Lush continuar investindo e lucrar no país." Assim, a marca que opera em 49 países e conta com 932 lojas físicas e 38 lojas virtuais não encontrou condições para seguir operando no Brasil.

O momento escolhido para retornar ao país, porém, pode ser alvo de questionamentos. Apesar de ser o quarto maior mercado consumidor de perfumaria, cosméticos e higiene pessoal do mundo, e o mercado de beleza ter sido um dos poucos que conseguiu manter o crescimento apesar da crise econômica, o mercado de luxo como um todo encolheu 23% nos últimos dois anos no Brasil, e deve apresentar um desempenho tímido neste ano.

As previsões dos economistas é de que esse mercado terá um crescimento tímido de apenas 2% em 2018 e nos três anos seguintes. Talvez por isso, a Lush tenha percebido que não era uma boa ideia continuar atuando no país.

Agora, os consumidores que quiserem adquirir os cosméticos da marca que tem mais de 23 anos é também é conhecida por trabalhar com produtos frescos, como frutas e vegetais orgânicos, terão que fazer encomendas pelo site britânico da companhia: "Nossa amizade não acaba por aqui, você poderá nos encontrar no site uk.lush.com e comprar seus produtos Lush favoritos."

Antes disso, porém, os consumidores brasileiros terão até o dia 31 de agosto para obter informações pela loja virtual, redes sociais e setor de atendimento ao cliente aqui no Brasil, além de poderem aproveitar uma janela de oportunidade para fazer uma espécie de estoque dos famosos cosméticos aproveitando que, até o fim das operações em junho, todos os produtos estarão sendo vendidos com 50% de desconto tanto nas lojas físicas quanto na internet, exceto os da linha beneficente Charity Pot e acessórios.

Doações e ativismo

Empresa britânica tem toda uma linha de produtos que reverte 100% do valor da venda para ações de caridade e ONGs
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Empresa britânica tem toda uma linha de produtos que reverte 100% do valor da venda para ações de caridade e ONGs

A linha de produtos Charity Pot , inclusive, chegou a arrecadar R$ 280 mil no país nesses últimos quatro anos. Esses produtos que são vendidos em todo o mundo tem 100% do seu valor doados para ONGs e entidades beneficentes. Até agora, R$ 127 mil já foram doados para 23 organizações diferentes e a Lush afirmou que "as doações para projetos brasileiros continuarão até que não haja mais dinheiro guardado".

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Além disso, apesar de não ser totalmente vegana por contar com cosméticos que usam ingredientes derivados de animal (como leite, mel, lanolina e ovos), a Lush é uma simpatizante engajada na causa e cerca de 80% do seu catálogo de cosméticos são veganos e vem com o selo "Vegan" na embalagem.

Também nessa linha, os cosméticos feitos à mão pela Lush também são livres de testes em animais. A empresa criada em Poole, no Reino Unido, pelo dermatologista Mark Constantine e pela esteticista Liz Weir, nasceu para preencher uma lacuna no mercado diante da demanda crescente por cosméticos com apelo ecológico.

Dessa forma, a marca conta com uma política ativista que impede, inclusive, parcerias ou negócios com fornecedores que façam testes em animais para qualquer propósito de modo que todos os seus produtos são avaliados e testados por voluntários humanos.

Agora, porém, a empresa se despede novamente do Brasil afirmando que "adoramos atendê-los e gostaríamos de agradecer toda a paixão e entusiasmo de vocês sobre nossa marca ao longo desses anos" e negando que o encerramento das operações tenha qualquer ligação com um processo que a empresária Sandra Isper Rocha, responsável por trazer a marca pela primeira vez ao Brasil, está movendo contra a marca.

Imbróglio judicial

Loja da marca de cosméticos de luxo na Rua Oscar Freire, uma das áreas mais valorizadas e sofisticadas de São Paulo, conta até com um SPA para os clientes
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Loja da marca de cosméticos de luxo na Rua Oscar Freire, uma das áreas mais valorizadas e sofisticadas de São Paulo, conta até com um SPA para os clientes

Depois de ser presenteada por um amigo com um sabonete da marca e passar dois anos negociando para trazer a marca ao Brasil em 1999, a empresária paulistana conseguiu finalmente tocar a idea e chegou a abrir 25 lojas no país e faturar R$ 10 milhões por ano. Em 2004, porém, as coisas começaram a desmoronar por desentendendimentos entre os sócios brasileiros e os fundadores britânicos.

Numa tentativa da matriz de retomar o poder sobre as filiais em vários lugares do mundo que estavam dando certo, a Lush fez uma proposta de unificar todas elas numa única empresa que abriria capital na Bolsa de Londres.

Sandra, porém, relutou e afirma que a empresa começou a boicotá-la reduzindo prazos de financiamento, exigindo compra de matéria-prima à vista e atrasando entregas de modo que a operação se tornou inviável e a empresária teve que fechar as portas em 2005.

Em 2007, porém, ainda sem conseguir um acordo amigável com os ingleses, a brasileira processou a Lush pleiteando uma indenização de R$ 80 milhões. O processo judicial havia sido extinto por perda de prazo, mas a empresária retomou a investida em 2014 quando a marca decidiu voltar ao Brasil e conseguiu uma reversão da decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ) no início deste ano deixando a situação novamente em aberto.

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Desse modo, mesmo encerrando as operações no Brasil, a marca de cosméticos britânica ainda poderá ter uma grande conta a pagar. No último resultado divulgado pela empresa de capital fechado em junho de 2016, no entanto, a empresa anunciou que faturou o equivalente a R$ 2,3 bilhões e lucrou R$ 194 milhões.

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